Como desenvolver o potencial inovador de pequenas e médias empresas

Hitendra Patel é CEO global da IXL Center e encorajador de grandes ideias. Acredita na força das pequenas e médias empresas e enxerga o Brasil como país com potencial para competir mundialmente

Hitendra Patel é um encorajador da tomada de riscos. CEO global da IXL Center, consultoria norte-americana em inovação, ele defende que, se alguém tem uma boa ideia, deve investir nela independentemente de ter uma estrutura empresarial pequena, média ou grande pra isso.

Nesse sentido, e, considerando que ideias inovadoras costumam surgir em contextos de instabilidade econômica, Patel compreende o Brasil como um potencial competidor global. O País só teria que, no entendimento do líder, ser suficientemente corajoso para arriscar e se mostrar. Não só com startups, mas, também, com qualquer empresa e órgão público.

Ao O POVO, durante um evento sobre estratégia e aceleração de crescimento, em Fortaleza, em abril, Patel indicou os caminhos para a economia de inovação, disse o que é preciso para que pequenas, médias e grandes empresas não sejam “engolidas” pela ousadia das startups e analisou a conjuntura econômica do Brasil. Confira a seguir.

O POVO - Como você vê o Brasil no contexto da inovação? Aqui, no País, a gente sabe inovar ou precisa avançar nesse aspecto?

Hitendra Patel - O Brasil tem sido um país que sabe acompanhar tendências mundiais muito bem. Os líderes dos negócios no Brasil vão para outros países, aprendem como se faz e trazem (ideias) para fazer aqui. Agora, existe uma mudança que tornou mais difícil para o empresário brasileiro acompanhar as tendências, que é o fato de que, com o mundo se transformando digitalmente, hoje, uma pessoa com um computador (e uma boa ideia) pode inovar em qualquer parte do mundo. A gente está saindo de uma economia baseada em ativos físicos e indo para os ativos intangíveis, que são economias baseadas no conhecimento, na tecnologia. Você vê regiões se destacando como o caso de Florianópolis e São Paulo. Também, um ponto positivo é que os jovens de hoje, no Brasil, com os programas universitários, estão se expondo mais para o mundo. Por isso, podendo viver em países como Alemanha, França e Estados Unidos. E novas ideias fluem de volta ao País com este jovem que está tendo experiências fora. Com isso, cada vez mais, as pessoas passam a ser mais competitivas globalmente. Porque não é mais só investimento em ativos físicos, mas em conhecimento. Só que esses empreendedores jovens que estão começando com suas ideias hoje enfrentam uma dificuldade particular no Brasil que é o fato de que temos uma economia cíclica do ponto de vista de crescimento. Nunca é uma constante. Os vales de estagnação ou de decréscimo da economia são muito longos, mais do que na maioria dos outros países. Outros países também têm ciclos, mas o ciclo de crescimento é mais longo e o de depressão é menor do que no Brasil.

OP - O que o Brasil precisa aprender com os países mais desenvolvidos?

Hitendra - Tentar ser global o mais rápido possível. Competir globalmente, com inglês como plataforma, que é básico, e acreditar que as empresas brasileiras são ou podem ser tão boas quanto qualquer outra no mundo.

OP - A palavra ‘inovação’ está muito atrelada ao vocabulário de startups e a gente sabe que não é assim. Qualquer modelo de negócio pode agregar inovação. Qual o caminho, então, para inovar?

Hitendra - Inovação, basicamente, é criar uma nova ideia e levar à comercialização. A gente sabe que startups fazem isso, mas pequenas e médias empresas, também. Até grandes empresas e governos. E a crença que existe de que startups são o caminho, a melhor forma de investir, é baseada em pouquíssimos exemplos que são os unicórnios (startups que possuem avaliação de preço de mercado no valor de mais de US$ 1 bilhão). Mas a gente nunca fala sobre as milhares de empresas que fracassaram pra existir um unicórnio. E, da mesma forma que startups, as pequenas e médias empresas e governos têm milhares de ideias. Mas a gente não nota que esses governos e grandes empresas têm startups dentro deles. Porque toda ideia que vai pro mercado e é uma ideia que gera crescimento, é uma startup. Minha opinião é que se você quer gerar crescimento regional ou econômico o menos arriscado é focar em PMEs (Pequenas e Médias Empresas). As PMEs são empresas crescidas, adultas. Já sabem como levar uma ideia à comercialização e como contratar, demitir, construir um time. Sabem como fazer e vender coisas. Têm fornecedores e clientes que já existem para comprar a nova ideia. E muitas delas têm, inclusive, capacidade financeira de investir com o próprio recurso da empresa pra transformar essa ideia em realidade. Tudo o que a gente precisa fazer é focar e dar mais atenção às PMEs pra tornar elas novos unicórnios, assim como startups, também.

OP - Como incentivar pequenas empresas a inovar?

Hitendra - Pequenas empresas já são, por natureza, inovadoras. O que acontece é que muitas vezes estão tão focadas em cobusiness que não têm tempo pra criar novas ideias ou novas perspectivas de crescimento. Tudo o que precisam é serem lembradas de que, no início, quando criaram aquela ideia, queriam ser muito grandes. Por exemplo, na Colômbia, temos um caso em que trabalhamos com mais de 700 PMEs. 90% dessas PMEs tiveram o resultado de conseguir um novo cliente em 12 meses. Mas elas não sabiam que podiam fazer isso. Nunca tinham feito. O que a gente fez foi, basicamente, criar grupos de 20 a 30 empresas e dizer a elas que podiam fazer e ensinar como fazer. Quando a gente coloca essas empresas em grupos a gente cria um ecossistema em que elas podem, ao mesmo tempo em que se ajudam, vender umas para as outras e serem as próprias clientes. As PMEs querem crescer dez vezes mais. Só precisam parar e serem relembradas do que queriam fazer lá no começo. Certamente, em Fortaleza, existem milhares como essas que podem ser o próximo unicórnio.

OP - Considerando o contexto do Brasil, é possível inovar e crescer em tempos de crise?

Hitendra - Penso que esse é o melhor momento pra tomar a dianteira. A maioria das empresas neste momento de crise se retraem e tentam sobreviver, mas aquelas que têm capacidade financeira e podem investir no seu crescimento, se fizerem isso agora, vai ser mais fácil, porque todos os concorrentes estão retraídos. E vão conseguir criar uma distância entre a concorrência muito mais rápido do que fariam num momento normal. Um exemplo é na crise de 2008. A Hyundai era número sete no mercado global de carros. E, naquela época, todo mundo estava cortando preço pra ver se vendia mais carro. Na Hyundai, a estratégia foi dizer: “Vamos manter nosso preço, mas vamos inovar no modelo de negócio”. Eles criaram novas estratégias de preço e o que falaram pros consumidores foi que, se eles (os clientes) perdessem o emprego durante a crise, poderiam devolver o carro, eles aceitariam e os consumidores não teriam dívida nenhuma. O que aconteceu foi que as pessoas que tomaram o risco de comprar um carro no momento da crise foram exatamente aquelas que não iriam perder o emprego, as mais conscientes, que tinham a segurança de que não perderiam. Enquanto a General Motors estava vendendo um carro com 30% de desconto sem fazer lucro, porque o preço não permitia, e ninguém queria comprar um carro da GM, não porque o carro não era bom, mas porque não tinham segurança de que iriam poder continuar pagando a prestação. A Hyundai, como exemplo dessa estratégia de arriscar, saiu de sétima posição pra quarta posição naquele ano. Um bom empreendedor consegue enxergar na incerteza uma oportunidade. Enquanto outras pessoas vão entender como risco e, por isso, nunca vão inovar.

OP - É possível o grande empreendedor aprender com as pequenas empresas?

Hitendra - A dificuldade de a grande empresa inovar é que as decisões normalmente são tomadas por pessoas que não são parte do time que criou aquela ideia, então, o processo decisório é muito complexo. Numa pequena empresa, o CEO é aquele que está envolvido na criação e no time que vai executar aquela ideia. E, nesse ponto, uma grande empresa pode aprender como uma pequena empresa toma um processo decisório e responsabiliza as pessoas por essa decisão. Se ele (CEO) terceiriza essa decisão pra um gerente, por exemplo, o gerente tem que ter acesso ao CEO no dia a dia. E, se ele delega essa ideia pra um time muito longe dele, e se não dá atenção a essa ideia, certamente ela vai morrer no percurso. Inovação é sobre velocidade e paixão. Se a gente não tomar decisões rapidamente, nossa paixão pela ideia vai diminuir. E, por isso, acaba sendo morta.

OP - Durante o workshop, você falou muito em pensar nas tendências, no futuro. Um futuro em que não haverá médicos e que a gente será substituído por robôs. Como se preparar para esse futuro? E que mercado teremos nele?

Hitendra - Não deveríamos ver os robôs como competidores. Vão ser como um Excel ou Powerpoint (programas do Windows) que somente vão aumentar nossa eficiência. A ideia é que os robôs nos deem mais tempo pra nos dedicar a coisas que nos dão prazer e nos liberem de coisas que achamos tediosas, chatas, repetitivas. A gente vai ter novas ideias, descobrir novas coisas que desejamos fazer e encontrar novas oportunidades. Se você, no Brasil, entender robôs como competidores, então, como consequência, o Brasil vai ser menos competitivo comparado a economias como Japão e EUA, onde robôs já são realidade. Temos que abraçar essa realidade e tentar robotizar ao máximo nossa economia. E, talvez, o que a gente tenha que fazer é treinar nossa força de trabalho pra entender o que fazer com o robô.

OP - Quais características um empreendedor precisa ter?

Hitendra - São otimistas, trabalham duro, são espertos, solucionam problemas, são construtores de times e estão sempre buscando novas formas de vender. Normalmente, são pessoas boas de vendas.

OP - E como montar esse time que você fala?

Hitendra - Olhar pra dentro da empresa e perguntar quem são as pessoas que podem nos ajudar, que têm as qualidades que precisamos. Ou, se não temos dentro da empresa, buscar fora. Uma coisa que é muito importante entender é que as pessoas que vão participar desse time são diversas e você não pode tolerar a diversidade, você tem que abraçar a diversidade. E, quando você trabalhar com esses times, deve se assegurar de que está focando nas qualidades, nas fortalezas dessas pessoas, e não nas fraquezas. Especialmente em empresas em que você não pode escolher um time, que tem que pegar um que já existe na empresa, você tem que ser muito flexível no sentido de abraçar diferenças e fazer o time funcionar de qualquer jeito. Mas, se você pode montar um time, o ideal é buscar pessoas que têm as qualidades que você precisa.

OP - Sobre as novas formas de trabalho, qual é o limite entre a precarização e o lado positivo de gerar novas formas de emprego?

Hitendra - Existem duas características que podem levar uma pessoa a empreender: em primeiro, a necessidade, e, em segundo, uma grande ideia. Sobre essa primeira característica, a gente não tem como impedir uma pessoa de batalhar pra por comida na mesa. O que pode acontecer é ela se transformar numa grande empreendedora. Muitas vezes, as pessoas vão pra um emprego porque ser empreendedor é sempre muito mais desafiante e arriscado. Então, vão pro que tem menos risco. Mas, quando são obrigadas a se expor ao risco e aprendem, querem continuar e podem ter uma grande ideia.

OP - O senhor conhece o governo Bolsonaro? O que podemos esperar dele para o empreendedorismo no Brasil?

Hitendra - O presidente (Bill) Clinton tem uma citação que diz que os EUA são um país que tem estabilidade e que, por isso, é muito melhor pra empreender. Mas não é tão fácil encontrar empreendedores ou desenvolver empreendedores num país que tem uma oferta regular de emprego e que a pessoa que não toma risco tem salário e vive uma vida digna. Ao contrário de um país com alto grau de instabilidade, em que as pessoas são normalmente compelidas a sair e buscar uma nova oportunidade pra ter um ganho extra ou uma vida mais digna. Se você pudesse combinar esses dois cenários, pegar essa pessoa que foi treinada por um mercado instável e colocar dentro de um mercado onde existe uma estabilidade pra quem quer empreender, certamente esse seria o melhor empreendedor possível. Nosso entendimento é que o governo Bolsonaro se propõe a fazer uma transição da incerteza para um cenário de estabilidade. Naturalmente, se ele conseguir fazer isso, os empreendedores que estão saindo do cenário incerto para um mais regular vão ser muito mais bem sucedidos.

Workshop
Hitendra esteve em Fortaleza em abril para ministrar um workshop sobre estratégia e aceleração de crescimento.

Origens e atuação profissional
Hitendra Patel descende de indianos e nasceu na Zâmbia, ao sul da África. Começou a carreira como tecnólogo na Motorola e é proprietário de seis patentes. Além de ser CEO global da IXL Center, consultoria norte-americana em inovação sediada em Cambridge, Inglaterra, ajudou a construir o Hult Prize, um acelerador de startups de impacto social que rende prêmio anual em dinheiro no valor de US$ 1 milhão.

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